Três integrantes de uma família de dupla nacionalidade, brasileira e libanesa, perderam a vida após um bombardeio israelense atingir a residência deles em Bint Jbel, na região sul do Líbano, enquanto buscavam recuperar roupas e pertences pessoais. Desde o ataque, os corpos permanecem desaparecidos sob os escombros do imóvel, que foi totalmente destruído.
Entre as vítimas estão Manal Jaafar, de 47 anos e de nacionalidade brasileira; seu filho Ali Ghassan Nader, de 11 anos; e o pai do garoto, Ghassan Nader, libanês de 57 anos. O trio havia deixado o local em 2 de março, no início de uma nova escalada do conflito, refugiando-se temporariamente em Beirute, capital libanesa. Após a declaração de cessar-fogo em 16 de abril, a família retornou a Bint Jbel no sábado, 25, para coletar mais roupas e bens antes de planejar o retorno à capital.
Bilal Nader, irmão mais novo de Ghassan, é cidadão brasileiro e reside em Foz do Iguaçu, no Paraná. Ele relatou que o irmão pretendia voltar para Beirute no mesmo dia em que foi ao sul do Líbano, mas decidiu dormir na casa para retornar apenas no domingo, 26, data em que ocorreu o ataque aéreo. Segundo Bilal, o irmão já havia deixado o carro preparado e o porta-malas carregado para a volta.
No ataque, Kassam Nader, de 21 anos, outro filho do casal que estuda computação no Líbano, ficou ferido e recebeu alta hospitalar em 28 de abril. O casal era pai ainda de outros dois filhos, atualmente com 28 e 26 anos, que vivem e trabalham fora do país.
Segundo Bilal, Ghassan não tinha qualquer envolvimento político, levando uma vida como agricultor de oliveiras na região sul do Líbano e nutrindo esperança de que o conflito chegaria ao fim. Bilal destacou que o irmão era uma pessoa reservada, sem vínculos partidários e com muitos amigos tanto no Brasil, incluindo estados como Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, quanto no Líbano.
Bilal explicou ainda que a área onde o irmão residia não era palco de hostilidades recentes, predominando construções e moradores civis. Ele afirmou:
“As cidades mais para frente é onde estavam acontecendo os bombardeios, onde estão roubando as casas. Ao redor da casa dele não tinha nada, só construções civis, com população civil normal.”
A Embaixada de Israel no Brasil foi procurada para comentar o ataque à residência da família no Líbano, mas não respondeu até o fechamento da reportagem.
O Líbano abriga a maior comunidade brasileira no Oriente Médio, com 22 mil brasileiros vivendo no país em 2023, conforme dados do Ministério das Relações Exteriores. O governo brasileiro repudiou oficialmente os ataques israelenses durante o período vigente do cessar-fogo.
Durante mais de 15 anos, entre 1995 e 2008, a família morou no Brasil, onde Manal Jaafar teve filhos e conquistou a nacionalidade brasileira. Ghassan Nader, entretanto, não se naturalizou por falta de tempo, pois dedicava-se ao trabalho no comércio de eletrônicos. O jornalista libanês-brasileiro Ali Farhat, amigo da família, relatou que Ghassan era formado em economia, escreveu um livro sobre economia mundial em árabe e era muito ativo na comunidade libanesa no Brasil. Ele também atuou como empresário e intelectual, realizando pesquisas antes de decidir retornar ao Líbano para viver com a família.
“Ele era muito ativo na comunidade libanesa aqui no Brasil. Ele trabalhava como empresário aqui e também como intelectual. Ele estava tentando fazer alguns estudos, algumas pesquisas e depois ele decidiu viajar para o Líbano para viver com a família dele lá.”
Nos últimos meses, Israel tem sido acusado de violar o cessar-fogo firmado no Líbano. O Hezbollah, organização política e militar xiita, afirma que irá reagir contra as constantes violações da trégua. O Irã, por sua vez, pressiona para que o acordo de paz na região inclua também o território libanês. Informações divulgadas pela presidência dos Estados Unidos indicam que Israel pode realizar ataques contra o Hezbollah apenas em casos de legítima defesa, sendo permitido agir diante de ameaças iminentes, planejadas ou em andamento.
O governo israelense defende a ocupação de todo o sul do Líbano até o Rio Litani, situado a cerca de 30 quilômetros da fronteira, declarando que não permitiria o retorno da população civil à área. No último dia antes do cessar-fogo, Israel bombardeou a ponte de Qasmiyeh, a última sobre o Rio Litani, isolando a região sul do restante do Líbano e dificultando a ligação entre as cidades de Tiro e Sidon. Especialistas em geopolítica, como Anwar Assi, afirmam que as ações do exército israelense na região representam uma estratégia de limpeza étnica para expulsar os habitantes e ocupar o território.
“O objetivo principal da guerra é a expulsão das pessoas do Sul do Líbano. Por isso que eles destruíram escolas, hospitais, prédios do governo e todas as unidades que poderiam dar suporte ao retorno dos civis. Eles destruíram justamente para que essas pessoas que retornassem às suas cidades não encontrassem nenhum tipo de apoio.”
Israel, por outro lado, justifica suas ações alegando a necessidade de criar uma zona de segurança para se proteger de ataques do Hezbollah.
A fase atual do conflito entre Israel e Líbano teve início em outubro de 2023, quando o Hezbollah passou a atacar o norte israelense em apoio à população palestina devido aos massacres na Faixa de Gaza. Um acordo de cessar-fogo foi estabelecido em novembro de 2024 entre o Hezbollah e o governo israelense, mas Israel não o respeitou, mantendo ataques em território libanês.
Com a intensificação da agressão contra o Irã, o Hezbollah retomou investidas contra Israel em 2 de março, em reação às violações do cessar-fogo e como retaliação ao assassinato do líder supremo iraniano, Ali Khamenei. Embora um novo cessar-fogo tenha sido anunciado em 8 de abril, mediado pelo Paquistão, ataques israelenses seguiram ocorrendo no Líbano, ferindo o acordo.
A rivalidade entre Israel e Hezbollah remonta à década de 1980, quando a milícia xiita foi criada como reação à invasão israelense do Líbano, em resposta à presença de grupos palestinos refugiados no território. Em 2000, o Hezbollah conseguiu expulsar as tropas israelenses, consolidando-se como partido político com assentos no Parlamento e participação nos governos do país. Posteriormente, o Líbano sofreu novos ataques israelenses em 2006, 2009 e 2011.