A morte da brasileira Manal Jaafar, de 47 anos, e de seu marido, o libanês Ghassan Nader, de 57 anos, durante um bombardeio israelense no sul do Líbano no último domingo (26), evidencia as situações de risco enfrentadas por civis na região. O casal, que havia morado 12 anos no Brasil, buscava no Líbano uma vida mais tranquila e estável para a família.
Manal e Ghassan estavam acompanhados de seus dois filhos brasileiros quando ocorreu o ataque. Um deles, Ali Ghassan Nader, de 11 anos, também perdeu a vida no bombardeio. O outro filho estava presente na residência, conseguiu sobreviver e foi encaminhado para o hospital.
O jornalista libanês Ali Farhat, amigo próximo de Ghassan Nader, relatou que a comunidade libanesa recebeu a notícia da tragédia com intensa tristeza e sofrimento, destacando que situações como essa são frequentes para famílias que vivem em áreas de conflito no Líbano. Ele informou que o país já acumula mais de 2.500 mortes devido aos confrontos, sendo a maioria civis sem conexão direta com a guerra.
“A gente recebeu a notícia com muito sofrimento e muita tristeza. É essa notícia que a comunidade [libanesa] recebe todos os dias sobre familiares, parentes e amigos. O Líbano já perdeu mais de 2,5 mil vítimas. A grande maioria são civis, não tem nada a ver com essa guerra, não tem culpa nenhuma”, disse o jornalista libanês Ali Farhat, que era amigo de Ghassan Nader.
A família foi obrigada a deixar sua casa em razão dos ataques, porém retornou após a implementação de um cessar-fogo temporário. Segundo Farhat, a repercussão da morte do casal e do filho entre a comunidade libanesa no Brasil foi de grande decepção, pois evidencia a dor de várias outras famílias afetadas pela violência no território libanês.
Farhat classifica os bombardeios israelenses dirigidos ao Líbano como um massacre. Ele pontua que Israel tem atacado não apenas alvos militares, mas também áreas de valor simbólico e emocional, como mesquitas, cemitérios e habitações civis, tanto no sul do país quanto na capital, Beirute. O jornalista compara a ofensiva israelense no Líbano com as ações militares na Faixa de Gaza.
“Israel está bombardeando a geografia do Líbano, a memória do Líbano, mesquitas, cemitérios, casas civis. Não tem nenhum ponto protegido no sul do Líbano, tampouco na capital Beirute. Israel está tentando praticar o genocídio parecido com o que praticou na Faixa de Gaza”, ressaltou o jornalista à Agência Brasil.
A família de Ghassan e Manal já havia vivido em Foz do Iguaçu (PR), onde era reconhecida e apreciada pela comunidade local. Em sua última conversa antes da viagem de retorno ao Líbano, Ghassan expressou o desejo de proporcionar uma vida mais estável para seus filhos, aproveitando a renda adquirida durante os anos em que trabalhou no comércio brasileiro. Ele pretendia dedicar mais tempo à educação e ao convívio social da família.
“O plano dele era fazer uma vida estável no Líbano, com a renda que ele tinha conseguido [trabalhando no comércio aqui no Brasil]. Ele queria cuidar mais da vida dele e da família dele, queria fazer algo bem leve para conseguir dar mais tempo para os estudos e para a vida social”, contou Farhat, que vive no país há 25 anos e integra a comunidade libanesa em Foz do Iguaçu.
O jornalista também relatou que Ghassan não tinha envolvimento com questões políticas ou militares, sendo dedicado à pesquisa, produção de artigos e à participação em atividades sociais e culturais. Durante o período em que residiu no Brasil, de 1998 a 2010, Ghassan lançou um livro sobre a crise da economia global e era conhecido por sua atuação humanitária e intelectualidade no meio libanês local.
“Ele era um empresário aqui e era um ativista na comunidade libanesa, ativista humanitário, participava dos eventos sociais. Ele era uma pessoa intelectual, uma pessoa culta, sabia muito da área cultural e da área econômica. Ele era bem conhecido aqui na comunidade e todo mundo gostava dele”, mencionou.
O bombardeio que vitimou a família ocorreu no distrito de Bint Jeil, no sul do Líbano. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil confirmou o falecimento dos brasileiros na noite do dia 27. Os ataques israelenses não têm feito distinção entre alvos militares e civis, atingindo cidades e residências sem aviso prévio. Segundo dados do Ministério da Saúde do Líbano, a maioria das vítimas fatais são civis, como no caso de Ghassan, Manal e seus filhos, que foram surpreendidos em casa pelo ataque.
Melina Manasseh, integrante da comunidade libanesa no Brasil e da Federação Árabe da Palestina no Brasil, avalia que a política de ocupação israelense no Líbano é semelhante àquela aplicada na Palestina. Ela lamenta o falecimento de mais uma família com membros brasileiros e destaca o caráter expansionista da atuação militar de Israel na região.
“Não é a primeira vez que um brasileiro é morto pelas forças da ocupação. Israel nunca cumpriu uma única resolução da ONU quanto à Palestina e ocupou de forma militar o sul do Líbano por 18 anos. A ocupação militar não é a mesma que hoje se preconiza. Essa ocupação de hoje é a mesma que se dá na Palestina, ocupação de assentamento”, disse.
Ainda segundo Manasseh, que possui parentes em Beirute e no norte do Líbano, a notícia sobre a morte dos brasileiros não gerou ampla mobilização entre os descendentes de libaneses no Brasil. Ela observa que tanto libaneses quanto palestinos mantêm uma postura otimista diante dos conflitos, acreditando que os momentos difíceis passarão em breve. Apesar de a diáspora libanesa reunir cerca de nove milhões de descendentes no Brasil, ela considera que ainda não existe uma organização coletiva suficiente entre eles diante de episódios como o ocorrido.