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Filmes de Brasil e Paraguai discutem democracia na disputa do Prêmio Platino

Temas como repressão, alianças políticas e religião marcam os documentários finalistas.

02/05/2026 às 15:14
Por: Redação

Dois documentários que abordam a situação democrática na América Latina estão entre os finalistas ao prêmio de melhor documentário na 13ª edição do Prêmio Platino, principal evento de reconhecimento ao cinema ibero-americano. O resultado será divulgado em uma cerimônia no México, marcada para o próximo sábado, dia 9.

 

O título brasileiro, Apocalipse nos Trópicos, dirigido por Petra Costa, investiga o papel exercido pela religião evangélica na política nacional. O filme acompanha o movimento político desde a ascensão de Jair Bolsonaro, em 2018, passando pela sua queda e chegando à tentativa frustrada de golpe em janeiro de 2023. Além desses acontecimentos, a obra também examina o avanço da fé evangélica no Brasil, tema detalhado em pesquisas recentes.

 

Petra Costa, que já foi indicada ao Emmy Awards na categoria melhor direção de documentário, explora em seu filme como líderes evangélicos influenciaram decisões cruciais para o destino do país.

 

Na disputa pelo Paraguai, o longa Sob as bandeiras, o Sol, de Juanjo Pereira, foca na ditadura de Alfredo Stroessner, que governou o país de 1954 a 1989. O documentário utiliza imagens raras para retratar o regime autoritário, marcado por brutalidade e corrupção. O filme já conquistou o prêmio do júri no Festival de Cinema de Berlim, edição de 2025.

 

Para compor o material, Pereira recorreu a cinejornais exibidos em salas de cinema e a produções de propaganda estatal, uma vez que parte significativa do acervo visual paraguaio foi destruída para encobrir os crimes cometidos pela ditadura.

 

De acordo com dados da Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai, o regime de 35 anos resultou em pelo menos 20 mil vítimas e 420 mortos ou desaparecidos, sendo a ditadura de Stroessner a mais longa do continente.

 

Controle das mídias durante o regime paraguaio

O documentário Sob as bandeiras, o Sol apresenta imagens históricas sem utilizar entrevistas ou narrações, expondo o envolvimento dos meios de comunicação na sustentação do regime autoritário. A adesão da imprensa foi considerada fator fundamental para a longevidade da ditadura, segundo o professor Paulo Renato da Silva, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), especialista no tema.

 

"Ter o controle dos meios era decisivo, tanto para fazer a propaganda quanto para evitar as críticas e deixar um legado", avaliou o professor. "No Paraguai, houve uso de jornais e do rádio para conquistar o apoio e buscar ‘consenso’", citou o pesquisador.


 

O filme ainda destaca como essas imagens contribuíram para a formação da identidade nacional paraguaia.

 

Alianças internacionais e impactos na ditadura

Outro aspecto fundamental abordado pelo documentário é a conexão estabelecida entre a ditadura paraguaia e outros regimes da América do Sul por meio da Operação Condor. O Paraguai colaborou com países como o Brasil nessas ações, que envolveram trocas de informações de inteligência, perseguição a opositores e transferência de prisioneiros políticos. Os Estados Unidos também deram suporte a essas iniciativas.

 

A relação entre Brasil e Paraguai durante a ditadura incluiu ainda a realização de grandes projetos conjuntos, como a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, que foi firmada em condições consideradas desfavoráveis ao Paraguai.

 

Para o professor Paulo Renato, a parceria contribuiu para "vender a falsa imagem de um país que estaria se desenvolvendo, progredindo", explicou.


 

O documentário também aborda a origem alemã de Stroessner e sua ligação com criminosos nazistas, como o médico Josef Mengele.

 

Outros indicados ao prêmio de melhor documentário

A disputa pelo prêmio de melhor documentário na competição ibero-americana também inclui títulos que exploram temas intimistas. Entre eles está Tardes de Solidão, dirigido pelo catalão Albert Serra, uma coprodução entre Espanha e Portugal que foi premiada em eventos como o Goya, dedicado ao cinema espanhol. O filme apresenta a trajetória do toureiro peruano Andrés Roca Rey e exibe, com realismo, o universo das touradas, trazendo sangue, luta e triunfo, mesmo desafiando ambientalistas e gerando descontentamento até mesmo em seu protagonista.

 

Outro documentário selecionado é Flores para Antônio, realizado por Elena Molina e Isaki Lacuesta. O filme acompanha a busca de Alba Flores — atriz espanhola reconhecida pela atuação na série Casa de Papel — para compreender a história de seu pai, o cantor e compositor Antonio Flores, falecido quando ela tinha apenas 8 anos de idade. A obra mergulha na trajetória familiar a partir da perspectiva da artista.

 

Entre os documentários em competição, temas como repressão, alianças políticas, imprensa, identidade nacional e dramas pessoais se entrelaçam em narrativas que refletem diferentes ângulos da sociedade ibero-americana.

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