No dia 20 de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em Hannover, na Alemanha, onde participou de uma reunião com o chanceler federal alemão, Friedrich Merz. Durante o encontro, ambos assinaram acordos de cooperação envolvendo setores como defesa, inteligência artificial, tecnologias quânticas, infraestrutura, economia circular, eficiência energética, bioeconomia, pesquisa oceânica e climática.
Além dessa agenda política, Lula discursou na cerimônia de abertura da Hannover Messe, feira industrial alemã de referência mundial, que em 2026 tem o Brasil como destaque. O presidente também se reuniu com empresários alemães e brasileiros, abordando especialmente as oportunidades no segmento de biocombustíveis.
Na coletiva conjunta após a reunião bilateral, Lula e Merz se manifestaram sobre a instabilidade no Oriente Médio. Eles expressaram preocupação quanto à continuidade dos confrontos na região, especialmente sobre o risco de retomada do conflito no Irã e a intensificação das tensões no Líbano. Ambos analisaram também o contexto de incertezas globais diante das ameaças de uma eventual intervenção militar dos Estados Unidos em Cuba, citando declarações do presidente norte-americano Donald Trump.
Lula enfatizou que a guerra no Oriente Médio não possui justificativa e criticou a postura da Organização das Nações Unidas, por não promover soluções diplomáticas capazes de interromper o quadro de instabilidade internacional.
"A prevalência das forças sobre o direito é a mais grave ameaça à paz e à segurança internacional. Estamos profundamente preocupados com os riscos da retomada do conflito no Irã e da escalada no Líbano. A sobrevivência do Estado Palestino e do seu povo segue ameaçada", declarou Lula.
O presidente brasileiro também mencionou o conflito entre Rússia e Ucrânia, destacando que a expectativa por paz parece cada vez mais distante.
"Entre a ação dos que provocam guerra e a omissão dos que preferem se calar, a ONU está mais uma vez paralisada. Brasil e Alemanha defendem há décadas uma reforma que recupere a legitimidade do Conselho de Segurança", afirmou Lula.
O chanceler alemão, questionado sobre a situação, informou que pediu uma reunião extraordinária na ONU para discutir possíveis medidas a serem sugeridas. Ele lamentou o novo fechamento do Estreito de Ormuz, no Irã, e destacou o impacto direto sobre a economia mundial, especialmente sobre os preços do petróleo.
"A reabertura do Estreito de Ormuz tinha sido anunciada e feita, e depois fecharam de novo. Por isso, os preços [do petróleo] aumentaram de novo. Nosso apelo vai para o Irã, de cessar-fogo. Nosso apelo vai também para os EUA para que procurem soluções diplomáticas. As implicações e consequências da guerra não atingem apenas o Oriente Médio, mas pode levar a uma desestabilização política", afirmou Merz.
De acordo com o chanceler, para garantir a estabilidade energética mundial, é fundamental o encerramento imediato dos conflitos vigentes.
Durante a coletiva, Friedrich Merz declarou que, para a Alemanha, não há base legal que justifique qualquer ação militar em Cuba. Ele declarou não ver perigo para países terceiros que pudesse autorizar tal medida.
"Não vemos que exista algum tipo de perigo para países terceiros, então não sei porque seria necessário haver uma intervenção", afirmou o chanceler alemão, reiterando a necessidade de se buscar alternativas diplomáticas.
"Poder se defender não quer dizer poder interferir em outros países que tem sistemas políticos que não nos agradam", acrescentou Merz.
Lula, por sua vez, reforçou que se opõe a intervenções unilaterais, tanto em Cuba quanto em países como Venezuela, Ucrânia, Irã e Faixa de Gaza.
"Sou contra a falta de respeito à integridade territorial das nações. Eu sou contra qualquer país do mundo se meter a ter ingerência política sobre como uma sociedade deve se organizar ou não", afirmou Lula.
O presidente brasileiro também criticou o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba, vigente há quase 70 anos.
"Se a gente continuar a acreditar que deve prevalecer a lei do mais forte, isso já aconteceu outras vezes no mundo e não deu certo", completou Lula.
Lula e Merz celebraram a aprovação do acordo entre Mercosul e União Europeia, cuja vigência provisória começa em maio de 2026. O chanceler alemão destacou o protagonismo brasileiro na aprovação do acordo, indicando que, ao se tornar efetivo, abrirá novas oportunidades de cooperação em áreas como tecnologia, inteligência artificial, economia circular, agricultura e energia.
Lula afirmou que o acordo representa uma parceria abrangente, voltada para além do livre comércio, incluindo proteção aos trabalhadores, direitos humanos e ao meio ambiente. No entanto, o presidente brasileiro fez críticas quanto à adoção de mecanismos europeus para cálculo de carbono, entendendo que eles desconsideram a baixa emissão dos processos produtivos nacionais, baseados em fontes renováveis.
Lula ponderou que o equilíbrio das concessões é fundamental para a sustentabilidade do acordo, criticando medidas europeias que, segundo ele, podem causar desequilíbrio ao não considerar corretamente a realidade brasileira e as regras multilaterais.
Segundo Lula, Brasil e Alemanha assinaram acordos em diversos setores estratégicos. A Alemanha é a terceira maior economia do mundo e atualmente figura como o quarto maior parceiro comercial brasileiro, com movimentação de cerca de 21 bilhões de dólares em trocas de bens e serviços, de acordo com dados de 2025. O país europeu também está entre os principais investidores diretos no Brasil, com estoque superior a 40 bilhões de dólares em investimentos.
Friedrich Merz demonstrou interesse da Alemanha na área de minerais críticos, essenciais para tecnologias modernas, defesa e transição energética, incluindo baterias, painéis solares e turbinas. O Brasil, detentor de uma das maiores reservas mundiais dessas matérias-primas, é visto como parceiro estratégico.
"Estamos aprofundando nossa relação na área de matéria-prima crítica e isso e uma base central para desenvolvermos as tecnologias do futuro", declarou Merz.
Lula destacou que o país busca não apenas exportar minerais, mas também agregar valor por meio do desenvolvimento tecnológico e da implantação de cadeias de processamento em território nacional.
"Nossas reservas também nos tornam atores incontornáveis no debate sobre minerais críticos. Queremos atrair cadeias de processamento para o território brasileiro, sem fazer exportações excludentes. A colaboração em setores intensivos em tecnologia é uma prioridade para um país que não quer se limitar a ser um mero exportador de commodities".
Ambos os líderes ressaltaram o potencial da cooperação em biocombustíveis, visto como ferramenta relevante para a descarbonização do setor de transportes. Lula defendeu a diversificação das fontes de energia e criticou a resistência europeia ao uso de biocombustíveis, salientando a experiência brasileira na produção de etanol e biodiesel sem impactos negativos à produção de alimentos e florestas.
"Não existe segurança energética sem diversificação. A recente alta nos preços do petróleo mostra que está mais do que na hora da Europa superar sua resistência ideológica aos biocombustíveis. Eles são uma opção barata, confiável e eficiente para descarbonizar o setor de transporte. Com o conhecimento acumulado ao longo de cinco décadas, o Brasil é capaz de produzir etanol e biodiesel sem comprometer a produção de alimentos e as áreas de florestas", disse Lula.
Merz reforçou a intenção da Alemanha em investir em combustíveis renováveis, destacando a referência brasileira no setor e mencionando a presença de um caminhão movido a biocombustível no estande da feira em Hannover, como exemplo do avanço tecnológico nacional.