Durante a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, realizada nesta quarta-feira, 29, o indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF), Jorge Messias, afirmou que cabe à Suprema Corte buscar constantemente aprimoramento institucional e adotar postura de autocontenção diante de assuntos polêmicos ou que gerem divisão na sociedade.
Messias declarou-se evangélico e enfatizou a importância de garantir o caráter laico do Estado brasileiro. Em sua apresentação inicial à CCJ, o candidato ressaltou que a Suprema Corte precisa estar sempre aberta ao aperfeiçoamento, destacando que a percepção pública de que tribunais superiores resistem à autocrítica pode impactar negativamente a relação entre o Judiciário e a democracia.
A indicação de Messias foi feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o candidato, na República, todos os Poderes devem estar submetidos a regras e restrições. No momento, o STF discute a elaboração de um código de ética destinado a estabelecer normas para a conduta dos magistrados.
“Demandas da sociedade por transparência, prestação de contas, escrutínio público, não devem causar constrangimentos.”
O indicado também argumentou que a busca por transparência e aprimoramento por parte do STF é fundamental para combater discursos autoritários que possam ameaçar a independência do Poder Judiciário.
Durante sua fala, Messias defendeu que a Suprema Corte deve demonstrar à sociedade que possui mecanismos eficazes de controle e transparência, considerando que a democracia se inicia com a ética dos juízes. No processo de sabatina, 27 senadores se inscreveram para questionar Messias, que atualmente exerce o cargo de advogado-geral da União (AGU). Para assumir a vaga aberta pela aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso, são necessários ao menos 41 votos favoráveis entre os 81 senadores.
No discurso de abertura, Jorge Messias pontuou que o STF deve evitar protagonismo em decisões que possam acirrar divergências, ressaltando que o tempo é fator relevante para amadurecimento dos debates democráticos sobre temas sensíveis.
“Cortes constitucionais também se afirmam por suas virtudes passivas e devem ser cautelosas em operar mudanças divisivas que interfiram em desacordos morais razoáveis da nossa sociedade.”
Messias observou que a Suprema Corte sofre críticas de parlamentares sob a alegação de agir como legislador, especialmente em pautas para as quais a Constituição exige regulação, mas que o Congresso ainda não deliberou.
“O comportamento não expansionista confere legitimidade democrática às cortes e aplaca as críticas – tanto as justas quanto as injustas –, de politização da Justiça e de ativismo judicial. Nem ativismo, nem passivismo. A palavra é equilíbrio.”
Ele defendeu que a atuação do STF deve ocorrer de forma residual nas políticas públicas, ou seja, sem substituir gestores ou legisladores e sempre mantendo o respeito à restrição de direitos fundamentais.
No encerramento de sua intervenção na CCJ, Jorge Messias afirmou ser “servo de Deus” e considerou ser evangélico uma bênção, não um ativo, reiterando seu compromisso com a laicidade do Estado.
Para Messias, a identidade religiosa pessoal não se confunde com a neutralidade necessária à atuação no Estado constitucional. Segundo ele, a laicidade deve ser clara, mas também colaborativa, promovendo o diálogo entre Estado e todas as religiões.
Ele explicou que a neutralidade estatal diante de questões religiosas assegura o direito à livre expressão de fé para todos. Messias frisou que um juiz que coloca crenças pessoais acima da Constituição deixa de cumprir seu papel no Judiciário.
“Firmado o respeito absoluto à laicidade, devo-lhe dizer, como servo de Deus, que os princípios cristãos me acompanham em qualquer jornada da minha vida. Tenho clareza que o Estado laico não interdita considerar a base ética cristã que cimenta a nossa Constituição. É possível interpretar a Constituição com fé e não pela fé.”
Messias também destacou que sua trajetória não é fruto de tradição familiar no Judiciário. Ele ressaltou sua origem no Nordeste, sua condição de filho de classe média, seu vínculo com a fé e com a família, afirmando que chegou à indicação ao STF por estudo, trabalho e disciplina.
Para Messias, sua vida é marcada pela confiança construída ao longo de sua história, pela convivência com amigos, irmãos e pela dedicação, disciplina e humildade.
O texto foi ampliado às 11h40.