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Lula cobra coerência de progressistas e critica falhas do neoliberalismo

Em Barcelona, presidente discursa para 5 mil pessoas e alerta para o avanço da extrema-direita e a urgência de defender a democracia com justiça social.

18/04/2026 às 20:39
Por: Redação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em viagem à Europa, participou neste sábado (18) da primeira edição do evento Mobilização Progressista Global (MPG) em Barcelona, na Espanha. O encontro tem como objetivo reunir ativistas e organizações de esquerda de diversas partes do mundo para fortalecer a defesa da democracia com justiça social e combater o avanço de forças autoritárias de extrema-direita.

 

Em seu discurso para uma plateia de mais de 5 mil pessoas, que incluía chefes de Estado, Lula enfatizou que os indivíduos não devem ter receio de se identificar como progressistas ou de esquerda no cenário mundial atual.

 

Ninguém precisa ter medo, no mundo democrático, de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite as regras do jogo democrático estabelecidas pela própria sociedade.

 

Ao destacar os avanços que o campo progressista conseguiu alcançar para grupos sociais como trabalhadores, mulheres, população negra e comunidade LGBTQIA+, o presidente ponderou que a esquerda não conseguiu superar o pensamento econômico dominante, abrindo caminho para forças reacionárias ganharem espaço na sociedade.

 

Lula criticou o projeto neoliberal, afirmando que este prometeu prosperidade, mas entregou fome, desigualdade e insegurança, gerando crises sucessivas. Ele argumentou que, mesmo diante disso, os progressistas sucumbiram à ortodoxia econômica.

 

"O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema", afirmou Lula.

 

O líder brasileiro reforçou que a coerência deve ser o princípio fundamental dos progressistas, destacando que não é aceitável ser eleito com uma plataforma e implementar outra. Ele ressaltou a importância de não trair a confiança da população, que, mesmo sem se identificar como progressista, busca benefícios como boa alimentação, moradia adequada, acesso a escolas e hospitais de qualidade, uma política climática responsável, um ambiente limpo e saudável, trabalho digno, jornada equilibrada e salários que garantam uma vida confortável.

 

Segundo o presidente, a extrema-direita soube aproveitar o descontentamento gerado pelas promessas não cumpridas do neoliberalismo. Essa corrente política, conforme Lula, "canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras, falando das mulheres, dos negros, da população LGBTQIA+, dos imigrantes, ou seja, todas as pessoas mais necessitadas, que passaram a ser vítimas do discurso de ódio".

 

Engajamento internacional e crítica à concentração de riqueza

 

Anteriormente, no mesmo dia em Barcelona, o presidente Lula esteve presente na quarta edição do Fórum Democracia Sempre, ao lado de outros líderes internacionais. Este evento é uma iniciativa lançada em 2024, que conta com a participação dos governos do Brasil, Espanha, Colômbia, Chile e Uruguai. A reunião em Barcelona foi organizada pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, e contou ainda com a presença dos presidentes Yamandú Orsi, do Uruguai; Gustavo Petro, da Colômbia; Cyril Ramaphosa, da África do Sul; Claudia Sheinbaum, do México; e do ex-presidente do Chile, Gabriel Boric.

 

Dirigindo-se aos ativistas progressistas, Lula salientou a necessidade de responsabilizar os verdadeiros causadores da crise socioeconômica global, identificando-os como um pequeno grupo de bilionários que detém a maior parte da riqueza mundial. Ele criticou o que chamou de "falácia da meritocracia", argumentando que esses bilionários "chutam a escada para que outros não tenham a mesma oportunidade de subir", além de "pagarem menos impostos ou nada, explorarem o trabalhador, destruírem a natureza e manipularem os algoritmos". Lula concluiu que a desigualdade não é um mero fato, mas uma "escolha política", e que o lema dos progressistas deve ser sempre "estar ao lado do povo", escolhendo a igualdade.

 

Alerta contra a extrema-direita e a 'democracia corrompida'

 

O presidente brasileiro retomou a sua crítica aos líderes de países com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, referindo-se a eles como "senhores da guerra". Ele condenou os bilhões de dólares gastos em armamentos, recursos que, em sua visão, poderiam ser direcionados para erradicar a fome, solucionar problemas energéticos e garantir o acesso universal à saúde no planeta.

 

Lula afirmou que o "Sul Global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou", sendo tratado como "quintal das grandes potências", sufocado por "tarifas abusivas e dívidas impagáveis", e visto novamente como "mero fornecedor de matérias-primas". Ele defendeu que ser progressista na esfera internacional implica em apoiar um multilateralismo reformado, priorizar a paz sobre a força, combater a fome, proteger o meio ambiente e restaurar a credibilidade da Organização das Nações Unidas (ONU), que, segundo ele, foi "corroída pela irresponsabilidade dos membros permanentes".

 

Em outro ponto de sua fala, o presidente alertou que a ameaça da extrema-direita não é apenas discursiva, mas "real". Ele mencionou que, no Brasil, a extrema-direita "planejou um golpe de Estado", orquestrando uma "trama que previa tanques na rua e assassinatos do presidente eleito, do vice-presidente e do presidente da Justiça Eleitoral". Citando o Papa Leão XIV, Lula destacou o risco de a democracia se tornar uma "máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas", e afirmou que o papel dos progressistas é "desmascarar essas forças, desmascarar aqueles que dizem estar do lado do povo, mas governam para os mais ricos".

 

O presidente brasileiro reiterou que a democracia não é um fim em si mesma, mas exige ser reafirmada diariamente através da melhoria concreta da vida das pessoas, para que não perca sua credibilidade. Ele exemplificou situações em que a democracia não se manifesta plenamente, como "quando um pai não sabe de onde tirar seu próximo de comida", "quando um neto perde seu avô na fila de um hospital", "quando uma mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite nos seus filhos", "quando alguém é discriminado pela cor de sua pele" ou "quando uma mulher morre apenas pelo fato de ser mulher". Lula concluiu que é preciso "substituir o desalento pelo sonho, o ódio pela esperança".

 

Próximos compromissos na Europa

 

Após o encerramento de seus compromissos na Espanha, o presidente Lula seguirá para a Alemanha neste domingo (19). No país, ele participará da Hannover Messe, reconhecida como a maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo, que nesta edição prestará homenagem ao Brasil. Durante sua estadia na Alemanha, o presidente brasileiro também tem agendada uma reunião com o chanceler Friedrich Merz.

 

A agenda europeia de Lula será concluída no dia 21, com uma breve visita de Estado a Portugal. Em Lisboa, o presidente encontrará o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente António José Seguro.

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