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Dia de São Jorge reúne religiões no bairro Partenon, em Porto Alegre

Evento reúne católicos e adeptos do Batuque em programação conjunta e inter-religiosa no bairro Partenon

22/04/2026 às 20:20
Por: Redação

No bairro Partenon, em Porto Alegre, a celebração do Dia de São Jorge, marcada para o dia 23 de abril, promoverá, pelo terceiro ano consecutivo, um encontro inter-religioso, com início às 8h. O evento reunirá manifestações de fé de diferentes tradições religiosas, envolvendo tanto ritos católicos quanto expressões de religiões de matriz africana.

 

Durante as missas realizadas na Igreja de São Jorge, fiéis que estiverem do lado de fora do templo receberão bênçãos dos integrantes da Família Yecari do Terreiro de Batuque Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá. Essa organização atua há mais de duas décadas com projetos comunitários na zona norte da capital gaúcha.

 

No contexto religioso brasileiro, São Jorge é venerado pela Igreja Católica, enquanto, nas religiões de matriz africana, ele corresponde a Ogum. Ambos os santos, muito populares no Brasil, são considerados símbolos de coragem e força guerreira. Em todo o país, as comemorações do dia de São Jorge reúnem grande número de devotos, tanto no catolicismo quanto nas religiões de matriz africana.

 

Roseli Debem Sommer, atualmente com 47 anos, é filha de santo e integrante da Família Yecari. Ela nasceu em uma família católica, foi batizada, realizou a primeira comunhão, a crisma e se casou na Igreja Católica. A transição religiosa ocorreu aos 19 anos, mas o simbolismo de São Jorge como protetor e guerreiro permaneceu presente em sua vida.

 

“Minha falecida mãe sempre falava: te agarra no guerreiro, pede com bastante fé e com bastante coração, que tu pode ter certeza que ele vai te ouvir. São as palavras que sempre uso: que o grande guerreiro esteja sempre à frente das nossas batalhas”, disse, em entrevista.


 

Roseli mencionou que atos inter-religiosos similares também ocorrerão nas cidades de Rio Pardo e Santa Maria, levando a atuação da Família Yecari para outras regiões do Rio Grande do Sul, uma iniciativa considerada importante e motivo de orgulho para o grupo.

 

Durante o evento, a organização ficará sob responsabilidade do presidente da Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá, Pai Ricardo de Oxum, e da Família Yecari, em parceria com o padre Sérgio Belmonte, pároco da Igreja de São Jorge. Pai Ricardo explicou que essa celebração simboliza a resistência e a luta de ancestrais que, no passado, só conseguiam expressar sua fé por meio de imagens católicas – fenômeno conhecido como sincretismo religioso.

 

“Só conseguiam professar a fé através das imagens da igreja católica [sincretismo]. Então, com São Jorge e todas as imagens dos santos, a gente tenta passar o simbolismo da matriz africana. São Jorge, Ogum e Nossa Senhora dos Navegantes, Iemanjá, são os santos mais populares do Brasil”, afirmou Pai Ricardo.


 

O propósito do ato inter-religioso é proporcionar à comunidade de matriz africana e simpatizantes a oportunidade de compartilhar, junto com católicos, um dia dedicado à conexão espiritual e à celebração coletiva, promovendo integração entre diferentes crenças e respeito às tradições religiosas. Pai Ricardo destacou que, conforme o último censo, o Rio Grande do Sul é o estado brasileiro com maior número de praticantes de religiões de matriz africana.

 

Segundo ele, o estado possui um histórico de racismo e os católicos mantinham uma visão equivocada sobre as religiões de matriz africana. Ele explicou que, nos últimos três anos, a Família Yecari vem trabalhando para romper esses preconceitos e mostrar que as duas celebrações podem coexistir. Pai Ricardo ressaltou que São Jorge e Ogum são reverenciados mundialmente e que a tradição de ambos seguirem juntos faz parte da cultura.

 

A programação do evento inclui o tradicional banho de cheiro realizado pela Família Yecari, com atividades que se estendem até as 18h30. O encerramento será marcado por uma procissão ao redor da igreja e pela lavagem das escadarias da Paróquia São Jorge, um ritual considerado simbólico para purificação e renovação de energias.

 

Batuque e os fundamentos das religiões de matriz africana

 

No Rio Grande do Sul, o Batuque é uma religião de matriz africana que prioriza o culto aos orixás Oxalá, Bará, Ogum, Iansã, Xangô, Oba, Odé/Otim, Ossanha, Xapanã, Oxum e Iemanjá, cujas origens remontam a povos da Guiné, Benin e Nigéria. A Família Yecari, referência no Batuque, reúne mais de 50 mil integrantes no Brasil e em outros países da América Latina. É importante ressaltar que o Batuque não se identifica como umbanda nem como candomblé.

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