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Projeto identifica origem de tartarugas-verdes em Arraial do Cabo

Iniciativa realiza exames e monitora tartarugas-verdes para rastrear procedência das espécies em área de maior densidade do Brasil.

21/04/2026 às 16:08
Por: Redação

Mergulhadores em caiaque enfrentam o mar da Praia do Pontal, dentro da Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro, durante uma tarde de mar tranquilo e céu limpo. Aproximando-se cerca de 200 metros da faixa de areia, um dos mergulhadores submerge e, em poucos minutos, retorna à embarcação com uma tartaruga marinha, logo repetindo o procedimento para capturar mais um exemplar.

 

O procedimento, que atrai pescadores e banhistas curiosos, integra o monitoramento da saúde das tartarugas marinhas promovido pelo Projeto Costão Rochoso, desenvolvido pela organização não governamental Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento. Esta iniciativa visa reunir evidências científicas para a proteção e recuperação dos costões rochosos, áreas de transição entre o oceano e o continente.

 

A ação conta com o apoio da Petrobras e busca, como desafio principal, determinar a origem das tartarugas encontradas em Arraial do Cabo, região que concentra a maior quantidade de tartarugas-verdes em áreas de alimentação do litoral brasileiro. Além disso, todas as cinco espécies de tartarugas marinhas registradas no Brasil podem ser observadas em Arraial, conforme relata a bióloga Juliana Fonseca, uma das fundadoras do projeto.

 

Exames para rastrear procedência

Após a captura, os animais são levados para a areia, onde passam por uma série de exames que envolvem pesagem, medições e coleta de tecido, procedimento semelhante a uma biópsia. Este processo visa identificar a origem das tartarugas.

 

“Apesar de ter muitas tartarugas aqui em Arraial, é a área com maior densidade de tartarugas-verdes do Brasil, a gente não sabe onde elas nasceram. Então é isso que a gente está tentando entender agora”, completa.


 

A identificação da origem permite conhecer quais populações dependem dessa região. Quando a procedência é descoberta, torna-se possível compreender melhor a ligação entre as áreas de desova e as zonas de alimentação.

 

De acordo com Juliana Fonseca, as tartarugas encontradas têm uma expectativa de vida aproximada de 75 anos, passando cerca de dez anos em Arraial do Cabo. Algumas permanecem por até 25 anos, retornando à área natal apenas para reprodução.

 

Segundo a bióloga, as tartarugas chegam à costa ainda pequenas, após uma fase oceânica de pelo menos cinco anos, geralmente retornando à orla com cerca de 25 centímetros, onde permanecem para crescer e se alimentar nas águas do litoral fluminense.

 

“São juvenis, recém-chegadas na costa. Depois que elas nascem, têm uma fase oceânica que dura, pelo menos, cinco anos. Então, com cerca de 25 centímetros, voltam para a costa. Em Arraial do Cabo, elas crescem e se desenvolvem muito bem, ou seja, engordam aqui com a oferta de alimentos”, descreve.


 

Monitoramento, identificação e análises genéticas

No âmbito do projeto, as espécies tartaruga-verde e tartaruga-pente são acompanhadas em três praias de Arraial do Cabo – Praia dos Anjos, Praia Grande e Praia do Pontal – além da Ilha de Cabo Frio, todas localizadas na reserva marinha. Os pesquisadores realizam medições detalhadas, que abrangem casco, nadadeiras, cauda e até mesmo as unhas das tartarugas.

 

“É um monitoramento para entender como a saúde das tartarugas marinhas está”, diz Juliana.


 

A identificação dos indivíduos é feita também por meio de fotografias e softwares de computador. Segundo Juliana Fonseca, as placas presentes na cabeça das tartarugas possuem formatos e tamanhos únicos para cada indivíduo, funcionando de forma semelhante à impressão digital humana.

 

Desde 2018, o projeto já catalogou cerca de 500 tartarugas, das quais 80 foram submetidas à coleta de material genético. Os exames de DNA, desenvolvidos em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), têm previsão de resultados em até seis meses, permitindo esclarecer a procedência dos animais.

 

Distância de tolerância à presença humana

Outra vertente de pesquisa do Projeto Costão Rochoso busca determinar até que ponto as tartarugas toleram a aproximação de pessoas. Juliana Fonseca destaca que a popularidade dos animais resulta em muitos relatos de abordagem, toque e retirada das tartarugas da água, situações que provocam estresse significativo.

 

“As tartarugas são muito carismáticas, todo mundo quer observar. Por conta disso, infelizmente, a gente tem muitos relatos de assédio, de captura, de pegar a tartaruga e tirar de dentro da água, isso é um estresse muito grande para esses animais”, constata a mergulhadora.


 

O método utilizado consiste em aproximações simuladas, observando o momento em que as tartarugas modificam seu comportamento. Com esses testes, os pesquisadores pretendem calcular a distância média mínima aceitável para os animais.

 

Com base nessas informações, será elaborada uma cartilha de recomendações para a observação responsável de tartarugas marinhas, a ser utilizada tanto em Arraial do Cabo quanto em outros destinos turísticos do Brasil e do exterior.

 

Durante as atividades de pesagem, medição e coleta de tecido, banhistas, incluindo crianças, costumam se aproximar para observar. Em situações como essa, membros do projeto explicam aos presentes que a ação tem caráter conservacionista. No local onde os procedimentos ocorrem, uma placa alerta claramente: “Proibido tocar nos animais marinhos”.

 

Procedimentos e autorizações para a pesquisa

Segundo a pesquisadora Isabella Ferreira, a captura das tartarugas exige formação em áreas como veterinária, biologia ou oceanografia. Além disso, é necessário obter autorizações específicas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e do Projeto Tamar, reconhecido internacionalmente como uma das mais bem-sucedidas experiências em conservação marinha, criado em 1980.

 

Isabella relata que todas as ações, desde a captura, marcação e fotografia, são precedidas de pedidos de autorização. A equipe informa os guardas ambientais sobre as atividades programadas e apresenta as permissões necessárias sempre que realiza procedimentos na região.

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