Trabalhadoras e trabalhadores que atualmente atuam em regime de seis dias consecutivos de trabalho seguidos de apenas um dia de descanso manifestam expectativa diante de propostas em discussão que podem garantir mais tempo para lazer, convívio familiar, realização de tarefas domésticas e até pequenas viagens, caso o país adote dois dias de folga por semana.
O tema se tornou ponto central das reivindicações de categorias para o feriado de 1º de Maio neste ano. No Congresso Nacional, diversas proposições tramitam com o objetivo de alterar a legislação vigente quanto à jornada semanal e ao regime de folgas dos trabalhadores.
Darlen da Silva, balconista de farmácia de 38 anos no Rio de Janeiro, relata que dispõe de um único dia livre semanal. Mãe de duas filhas, ela descreve a rotina intensa em sua folga, dividida entre afazeres domésticos, lavar roupa e ir ao mercado, sem tempo para descanso efetivo. Segundo Darlen, retorna ao trabalho mais cansada na sequência da folga.
“Tenho duas filhas, então para mim é muito corrida a minha folga. Tenho que fazer tudo dentro de casa, lavar roupa, fazer mercado. Não tenho descanso. Venho trabalhar mais cansada ainda no outro dia.”
Com 15 anos de registro em carteira, Darlen afirma que sempre trabalhou sob esse regime. Ela considera que a concessão de apenas um dia de folga representa grande esforço para qualquer profissional, especialmente para mães e mulheres, que, segundo ela, enfrentam responsabilidades ampliadas.
No ambiente de trabalho, o debate sobre a possível mudança é frequente. De acordo com Darlen, todos aguardam ansiosamente a definição de novas regras.
A balconista projeta que, se aprovada uma nova legislação garantindo dois dias de descanso, pretende utilizar um deles para resolver as tarefas domésticas e o outro para relaxar ou realizar atividades de lazer, como passeios. Ela afirma que atualmente é necessário escolher entre descansar e atender às obrigações do lar.
Darlen ressalta que espera o cumprimento efetivo da lei, caso seja aprovada, principalmente o respeito ao teto de 40 horas semanais de trabalho. Relata ainda que colegas já experimentaram o modelo de dois dias de folga, mas, em contrapartida, precisaram trabalhar até 11 horas diárias, situação que considera insustentável.
Segundo ela, essa troca não compensa, pois, ao manter a jornada diária elevada, o cansaço se intensifica ao longo da semana.
Alisson dos Santos, garçom de 33 anos também no Rio de Janeiro, atua há dez anos sob a escala 6x1 em restaurantes. Ele relata que frequentemente utiliza seu único dia de folga para resolver demandas dos filhos e questões domésticas, o que inviabiliza o descanso pleno.
“A gente sempre tem que resolver alguma coisa da criança na escola, tem médico, sempre tem alguma coisinha para você fazer. Então, acaba não rendendo o seu dia de descanso. Sempre tem que fazer as coisas de casa.”
Alisson acredita que, com um segundo dia de folga, seria possível organizar melhor a rotina, destinando um dos dias aos compromissos do lar e o outro ao lazer com a família, inclusive possibilitando pequenas viagens, o que não é viável atualmente.
“Num dia você organiza as coisas de casa e, no outro dia, consegue passear com a família. Ou, se você vai direto do trabalho, consegue organizar até uma viagem. Com um dia só não, você não consegue fazer nada.”
Em São Luís (MA), Izabelle Nunes, cabeleireira de 26 anos, informa que, embora não acompanhe de perto as discussões no Congresso, considera positiva a iniciativa de ampliar o período de descanso semanal.
“Acho que todos nós trabalhadores temos o direito de ter no mínimo dois dias de folga. Cuidar dos nossos estudos, saúde, lazer, cultura e trabalhando nessa escala a gente só se acaba.”
Izabelle, que trabalha também seis dias por semana, acredita que o dia extra de descanso teria impacto significativo na organização da casa e no tempo dedicado à família. Ela afirma que aproveitaria a folga adicional para estar mais próxima dos familiares.
Karine Fernandes, professora de 36 anos, acompanha a discussão pelas redes sociais. Não sendo uma profissional que atua sob a escala 6x1, Karine declara apoio à redução da jornada e destaca a importância do tema para a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores.
“Acredito ser uma discussão importante, que afeta significativamente a qualidade de vida de muitos trabalhadores.”
Karine enfatiza que a questão interfere diretamente na estrutura familiar e no desenvolvimento das crianças, ao possibilitar mais tempo de convivência entre pais e filhos.
“Como mãe, penso em como isso influencia a vivência de crianças que podem ter mais tempo de qualidade com suas mães e pais e como isso tem resultado direto no fortalecimento dos adultos que irão se tornar.”
O debate sobre o fim do regime 6x1 integra a pauta trabalhista prioritária do governo federal, com diferentes propostas em análise pelo Congresso Nacional e perspectiva de avanço nas próximas semanas.
Entre as proposições está a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que propõe a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas, com transição prevista para dez anos.
Outra proposta em tramitação, a PEC 8/25, de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), estabelece uma semana de trabalho de quatro dias, limitada a 36 horas totais.
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, também enviou ao Congresso projeto de lei em caráter de urgência constitucional para extinguir o regime 6x1 e instituir a jornada máxima de 40 horas semanais. De acordo com o rito, esse projeto precisa ser apreciado em até 45 dias, sob pena de bloquear a pauta do plenário da Câmara dos Deputados.