Líderes de nações africanas se reuniram em Dacar, Senegal, nos dias 20 e 21 de abril de 2026, durante o 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, destacando a necessidade de união e autonomia do continente para enfrentar ameaças como o terrorismo. O evento, organizado pelo governo senegalês desde 2014, congregou chefes de Estado, representantes de organismos internacionais e especialistas em segurança, contando com participantes de 38 países, dos quais 18 pertencem ao continente africano. Além desses, outros países, como o Brasil, também enviaram representantes ao fórum, incluindo a embaixadora no Senegal, Daniella Xavier.
Na sessão inaugural, o presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, apontou que o cenário global recente é marcado por rupturas comerciais entre grandes potências, práticas protecionistas e questões climáticas. Segundo ele, a África não está protegida dessas adversidades e ainda enfrenta desafios adicionais, como conflitos armados e ameaça terrorista.
“O nosso continente, longe de estar protegido, sofre os efeitos de todas essas crises e ainda precisa enfrentar múltiplas ameaças, como conflitos armados e o terrorismo”, afirmou.
O debate deste ano abordou o tema "África enfrenta os desafios da estabilidade, integração e soberania: Quais soluções sustentáveis?". Durante seu discurso, Diomaye Faye ressaltou a necessidade de esforços conjuntos e solidariedade para conduzir o continente rumo à paz, integração, prosperidade e independência política e econômica.
“Esse tema nos convida a uma reflexão profunda sobre o que devemos fazer juntos, com solidariedade, para tirar o continente do ciclo de instabilidade e transformá-lo em um espaço pacífico, integrado, soberano e próspero”, destacou o presidente senegalês.
O presidente dirigiu-se especialmente a convidados de governos europeus historicamente ligados à colonização africana, como Alemanha, Espanha, Portugal e França, frisando que a África deve definir a própria agenda de segurança.
“Não podemos mais aceitar que nossa agenda de segurança seja definida fora da África, nem que nosso espaço estratégico seja ocupado sem nosso consentimento”, sustentou.
Ele também enfatizou a importância da soberania africana na exploração de recursos naturais, mencionando urânio, petróleo e gás recentemente descobertos em território senegalês. Para Diomaye Faye, esses insumos devem ser extraídos, transformados e comercializados localmente, agregando valor às economias africanas.
Segundo o presidente, “Esses recursos não devem mais alimentar apenas indústrias estrangeiras. Extrair em nosso território, transformar em nosso território e vender a preços justos. Esse é o motor da nossa transformação estrutural”.
Diomaye Faye dedicou parte de seu pronunciamento à situação no Sahel, região que se estende entre o deserto do Saara e as savanas ao sul, e atualmente identificada como o principal foco do terrorismo mundial. Desde meados da década de 2010, grupos ligados ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda têm ampliado sua presença em direção aos países do Golfo da Guiné, ao longo da costa atlântica africana.
Um relatório recente do Índice de Terrorismo Global, elaborado pelo Instituto para Economia e Paz, indica que o Sahel concentrou mais da metade das mortes decorrentes de ataques terroristas em 2025. A região abrange Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Guiné, Mali, Burkina Faso, Níger, Chade, Camarões e Nigéria. Entre esses países, Mali, Burkina Faso e Níger, localizados no Sahel central, contabilizaram aproximadamente 4.500 ataques e 17.000 mortes nos últimos 20 anos.
Os especialistas atribuem a persistência dos ataques à instabilidade política, já que cada uma dessas nações enfrentou pelo menos um golpe militar na última década e lida com grupos insurgentes em áreas de fronteira. O relatório global aponta ainda que a ausência de cooperação efetiva na segurança das fronteiras do Sahel é explorada estrategicamente por grupos jihadistas.
“Embora a soberania seja importante em crises internas, aqui é necessária uma resposta multidimensional. Devemos trabalhar igualmente para ter um controle efetivo sobre as fronteiras”, expressou o presidente senegalês.
Diomaye Faye afirmou também que ameaças à segurança em um país como o Mali têm impacto direto sobre o Senegal, e vice-versa, exemplificando a necessidade de respostas conjuntas e integradas para combater o terrorismo. Para ele, a atuação isolada dos países não é suficiente, sendo imprescindíveis esforços militares coordenados, compartilhamento de informações e operações em conjunto entre as forças de defesa e segurança da região.
Julius Maada Bio, presidente de Serra Leoa, relacionou os problemas de segurança no continente à ausência de representação e oportunidades para os jovens. Segundo ele, o recrutamento para grupos violentos cresce onde as instituições falham em oferecer alternativas.
O líder de Serra Leoa defende que investimentos voltados à juventude devem ser vistos não apenas como política social, mas como parte de uma estratégia de segurança nacional.
“Extremismo e crime organizado encontram espaço nas falhas de governança e em um crescente e perigoso distanciamento entre cidadãos e o Estado. Grupos extremistas recrutam onde há desespero”, declarou.
Julius Maada Bio, que lutou na guerra civil de seu país entre 1991 e 2002, afirmou que a paz vai além da interrupção de conflitos armados, sendo fundamentada na dignidade e na esperança de futuro oferecida à população.
O chefe de Estado reiterou o compromisso dos líderes africanos com a busca por estabilidade, integração e soberania para garantir soluções sustentáveis aos desafios de segurança enfrentados pelo continente.
“Integração não existe sem soberania. Soberania não se sustenta sem estabilidade. Se puxarmos apenas um desses elementos, todo o sistema se desfaz”, destacou o presidente de Serra Leoa.
Ele também reafirmou a importância da autodeterminação dos povos africanos diante das dificuldades atuais, enfatizando que as soluções devem ser desenvolvidas a partir das realidades locais e não baseadas em modelos externos meramente adaptados.
“Devem ser soluções africanas, baseadas na realidade africana, não apenas modelos importados adaptados superficialmente”, completou. “Parcerias são bem-vindas, mas parcerias verdadeiras respeitam a autonomia africana”.
Julius Maada Bio considerou ainda que a sobrevivência das nações africanas depende do fortalecimento da unidade entre os países do continente.
Mohamed Cheikh El Ghazouani, presidente da Mauritânia, abordou questões de identidade, deficiências institucionais, vulnerabilidade econômica e impactos das mudanças climáticas como fatores que dificultam a coesão social nas sociedades africanas. Ele destacou que a independência não implica isolamento, pois nenhum Estado teria condições de enfrentar sozinho os desafios impostos pela globalização, fragmentação das cadeias de valor e transformações geopolíticas.
Para Ghazouani, a integração continental é indispensável, pois reduz dependências externas, fortalece complementaridades regionais e amplia a representatividade africana nos debates internacionais.
Nesse contexto, o presidente da Mauritânia defendeu o fortalecimento da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), formada por 12 países. Segundo ele, a Cedeao impulsiona o desenvolvimento ao estimular o comércio entre os membros, facilitar a circulação de mercadorias, serviços e pessoas, sendo um elemento central para a transformação econômica da região.
Atualmente, a liderança da Cedeao está a cargo de Julius Maada Bio, que destacou a necessidade de convencer os mais de 400 milhões de cidadãos envolvidos sobre a importância da permanência e unidade do grupo, ao mesmo tempo em que analisa as razões que levaram Mali, Níger e Burkina Faso a se retirarem da comunidade nos últimos anos. Essa decisão foi motivada pela percepção de que a Cedeao estaria subordinada a interesses estrangeiros.
No fórum, os países africanos que não enviaram chefes de Estado participaram com delegações ministeriais. Durante os dois dias de evento, foram discutidos temas como soberania tecnológica e digital, manejo de recursos naturais, transição política e desenvolvimento da indústria de defesa.
O repórter participou do evento a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Estrangeiro.