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Exposição traz louceiras do Maruanum e suas cerâmicas do Amapá ao Rio

Peças de barro que unem técnicas indígenas e africanas do Amapá são apresentadas pela primeira vez fora do estado.

27/04/2026 às 22:36
Por: Redação

O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), em parceria com a Associação de Amigos do Museu de Folclore Edison Carneiro, promoverá a partir das 17h do dia 30 a mostra "Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum".

 

Pela primeira vez, peças de cerâmica confeccionadas a partir de materiais orgânicos retirados do solo amazônico e que unem técnicas e saberes indígenas e de origem africana do distrito rural de Maruanum, localizado no Amapá, serão exibidas em uma exposição exclusiva fora do estado.

 

O CNFCP é uma unidade especial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), situado na cidade do Rio de Janeiro.

 

A antropóloga Ana Carolina Nascimento, que atua como coordenadora técnica de Pesquisa e Projetos Especiais no CNFCP/Iphan, realizou uma investigação de campo em Maruanum em outubro de 2025, acompanhada do fotógrafo Francisco Moreira da Costa.

 

Durante entrevista, Ana Carolina revelou que a intenção de organizar essa exposição remonta a mais de 15 anos. No entanto, fatores como a sazonalidade da matéria-prima utilizada na produção das louças e questões orçamentárias da instituição impediram a sua realização até o momento.

 

“A louça do Maruanum depende de uma matéria-prima que é de difícil obtenção. Então, por conta da sazonalidade da produção, da obtenção dessa matéria-prima, e também de questões orçamentárias da instituição, a gente demorou a concretizar esse desejo. Mas estamos muito felizes por realizar essa exposição agora”, afirmou a antropóloga.

 

O fazer artesanal das louceiras envolve um conhecimento detalhado sobre a biodiversidade da Amazônia, incluindo o uso do barro, das cinzas provenientes da queima da casca da árvore conhecida como caripé ou caraipé (Licania scabra) e a resina vegetal jutaicica, extraída do jatobá (Hymenea courbaril).

 

A antropóloga relatou que há diversas exigências e restrições a serem observadas na produção das louças, especialmente na extração do barro e no processo de queima. O momento de maior significado ritual ocorre logo após a retirada do barro, quando as mulheres moldam pequenas peças e as depositam no local de onde retiraram o material, como um gesto de oferta à mãe ou avó do barro. Segundo Ana Carolina, durante essa etapa, elas agradecem, pedem proteção para a queima e entoam versos de marabaixo.

 

Tradição e perspectivas de reconhecimento cultural

 

No presente, a tradição das louças de barro de Maruanum é mantida por 26 pessoas, das quais 20 são mulheres, que residem em um agrupamento composto por 16 vilas no distrito rural quilombola de Maruanum, a 80 quilômetros da capital, Macapá. Também participam da atividade dois homens e quatro crianças (duas meninas e dois meninos).

 

Segundo avaliação do arqueólogo Michel Bueno Flores da Silva, que está à frente do Iphan no Amapá, o valor desse ofício artesanal possibilita o lançamento do pedido de reconhecimento do trabalho tradicional de produção de louças de barro no território de Maruanum, o que representa a etapa inicial para o registro como Patrimônio Imaterial junto ao Iphan.

 

“A solicitação de registro do ofício das Louceiras do Maruanum, protagonizada pela comunidade junto ao Iphan, não apenas assegura a salvaguarda desse saber, mas também reposiciona o Amapá no cenário nacional, evidenciando sua centralidade na produção cultural brasileira e garantindo, além da visibilidade, instrumentos concretos de proteção”, declarou Michel Flores da Silva.

 

Entre os mecanismos de proteção citados por Michel, estão a salvaguarda dos territórios de coleta, a transmissão do ofício entre gerações e a valorização econômica que respeite os sentidos culturais e espirituais do trabalho das louceiras.

 

Ana Carolina Nascimento mencionou que os dois meninos atualmente envolvidos na produção de louça de barro em Maruanum "e são muito orgulhosos do seu ofício", podem inspirar colegas e amigos a se envolverem com a tradição, promovendo a renovação constante do grupo de artesãos.

 

Ela destacou ainda que o Instituto Federal do Amapá (Ifap) desenvolve projetos de educação patrimonial na comunidade, oferecendo oficinas para ensinar a prática das louceiras.

 

“Quem sabe outras crianças comecem também a fazer?”, ponderou a antropóloga.

 

Saberes ancestrais e transmissão de conhecimento

 

No dia de abertura da exposição no CNFCP, está programada uma roda de conversa às 15h, com a presença da mestra Marciana Dias, que aos 85 anos é considerada a guardiã desse saber no Brasil e a louceira mais idosa de Maruanum em atividade.

 

Além de Marciana Dias, participarão do encontro a artesã Castorina Silva e Silva, a pesquisadora Céllia Costa e o reitor Romaro Silva, ambos do Instituto Federal do Amapá.

 

Marciana Dias também é reconhecida como mestra do grupo de marabaixo, uma manifestação tradicional de dança e canto do Amapá, e fundadora da Associação de Louceiras, criada em 1992.

 

A pesquisadora Céllia Costa, desde 2011, acompanha e elabora ações de preservação da louçaria de barro de Maruanum em colaboração com as artesãs locais. Em 2016, durante seu doutorado na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ela passou a investigar estratégias educacionais para transmissão desse conhecimento por meio de abordagens pedagógicas. Desde 2020, Céllia também atua como agente cultural e de políticas públicas através do Centro sobre Cerâmica do Maruanum, Mulherismo, Decolonialidade, Relações Étnico-Raciais (Cemadere), grupo de pesquisa sob sua coordenação.

 

Esse centro possibilita a realização de ações voltadas à educação patrimonial e à formulação de políticas públicas para a comunidade de Maruanum.

 

Acervo, comercialização e visitação

 

A exposição reunirá 208 peças, criadas por 18 louceiros de Maruanum, dos quais 16 são adultos e dois são crianças.

 

As obras estarão à venda no Ponto de Comercialização Permanente do CNFCP. Esta será a 216ª exposição do programa Sala do Artista Popular, lançado em 1983 pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular.

 

A mostra permanecerá aberta ao público até o dia 1º de julho, com previsão de ser levada posteriormente para Macapá e Maruanum.

 

A visitação será gratuita e poderá ser realizada de terça a sexta-feira, das 10h às 18h, e aos sábados, domingos e feriados, entre 11h e 17h.

 

O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular e o Museu de Folclore Edison Carneiro estão localizados na Rua do Catete, número 179, bairro do Catete, zona sul do Rio de Janeiro.

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