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Empresários que financiaram a ditadura são majoritariamente descendentes de escravistas

Levantamento mostra que 40 dos 62 empresários que financiaram o regime militar descendem de famílias escravistas.

28/04/2026 às 00:27
Por: Redação

Levantamento feito a partir de documentos da Comissão Nacional da Verdade (CNV) revela que, entre os empresários cujas famílias apoiaram financeiramente a ditadura militar brasileira, ao menos dois terços têm ascendência direta de famílias envolvidas com a escravidão no país. A análise genealógica confirmou que 40 dos 62 empresários citados pela CNV descendem de senhores de escravos, de acordo com certidões, registros de batismo, atestados de óbito e outras fontes do Family Search, site de genealogia mantido pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

 

O capítulo denominado Civis que Colaboraram com a Ditadura, presente no relatório final da CNV, detalha de que forma diversas empresas participaram do financiamento ao regime militar. Foram mapeadas árvores genealógicas completas, incluindo famílias de sobrenomes reconhecidos, como Guinle de Paula Machado, antiga proprietária do Porto de Santos; Batista Figueiredo, ramo que inclui o último presidente militar e o então vice-presidente da Bolsa de Mercadorias de São Paulo; Família Beltrão, de Pernambuco, ligada a Hélio Beltrão, executivo do Grupo Ultra e ministro do Planejamento sob Costa e Silva; e o grupo Vidigal, dono do Banco Mercantil e da Cobrasma, Companhia Brasileira de Material Ferroviário.

 

O aprofundamento dessas relações históricas foi conduzido para o episódio intitulado Como Nossos Pais, da segunda temporada do podcast Perdas e Danos, que examina o vínculo entre grandes empresas e o regime militar.

 

Ricardo Oliveira, coordenador do Núcleo de Estudos Paranaenses e pesquisador da genealogia do poder, destaca:

 

“O que nós observamos é que a classe dominante tradicional no Brasil tem um núcleo duro desde o período colonial em todas as regiões.”

 

Ele explica que, ao retroceder algumas gerações, é possível identificar que avós ou bisavós de pessoas nascidas em 1950 já faziam parte do senhoriato escravista em suas regiões. O levantamento só considerou empresários com ascendência comprovada por meio de documentos oficiais.

 

Modelo de extração e exploração do trabalhador

 

Segundo Edson Teles, professor de filosofia política da Unifesp e coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), a ditadura manteve um modelo econômico centrado na extração:

 

“Extrair é o verbo fundamental do modelo econômico da ditadura. Extrair como ação fundamental e, por muitas vezes, quase que exclusiva.”

 

Teles afirma que, assim como na tradição escravista, o regime extrai não apenas recursos naturais, mas também do próprio trabalhador, submetendo corpos a condições análogas à escravidão, desrespeitando direitos e dignidade, em um processo de violência direta e de violações acentuadas.

 

Ele coordenou o mais extenso estudo já realizado no Brasil sobre as relações entre o regime militar e empresas nacionais e internacionais. Teles aponta que o objetivo da união entre poder econômico e repressão era atacar direitos dos trabalhadores:

 

“A relação mais íntima entre empresas e ditadura se deu justamente no ataque à organização dos trabalhadores. Logo que se deu o golpe, no mês de abril de 1964, 20 mil pessoas foram presas em um mês. É muita coisa. A grande maioria, trabalhadores sindicalizados.”

 

Marco Antônio Rocha, professor do Instituto de Economia da Unicamp, demonstra que, dois anos após o golpe, o salário mínimo perdeu metade do poder de compra:

 

“O que o governo fez foi modificar a política de indexação do salário mínimo frente à inflação. Com uma inflação já bem elevada, o salário mínimo ficou defasado de forma muito rápida. Em um a dois anos, perdeu cerca de 50% do poder de compra”, explica.

 

De acordo com o IBGE, a desigualdade social cresceu: em 1960, os 5% mais ricos concentravam 28% da renda nacional; em 1972, esse grupo detinha quase 40% da renda do país.

 

Persistência das elites e mobilidade social restrita

 

A presença contínua das mesmas famílias nas camadas superiores do poder evidencia um cenário de pouca mobilidade social no país. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma pessoa nascida em situação de pobreza no Brasil precisa de nove gerações, cerca de 300 anos, para alcançar a classe média – um dado que coloca o país, ao lado de Colômbia e África do Sul, entre os líderes mundiais em imobilidade social.

 

Ricardo Oliveira avalia:

 

“Para entender o Brasil, para entender a nossa grande desigualdade social, para entender a violência simbólica, social, política e real, a gente precisa entender essas famílias.”

 

O caso da família Bueno Vidigal

 

Com o objetivo de compreender o mecanismo de perpetuação das desigualdades, a investigação do Perdas e Danos aprofundou-se na trajetória da família Bueno Vidigal. Os critérios escolhidos para o estudo incluíram: influência política e econômica relevante durante a ditadura militar; atuação em múltiplos setores da economia, entre eles indústria, serviços e setor financeiro; e participação comprovada em diversos níveis de apoio ao regime, desde o golpe até o financiamento a práticas de tortura.

 

No início do século XX, Gastão Vidigal fundou a Cobrasma, especializada na produção de trilhos e trens, além do Banco Mercantil, que chegou a ser o maior banco privado do Brasil. A Cobrasma foi herdada por Luís Eulálio Bueno Vidigal e, posteriormente, por Luís Eulálio Bueno Vidigal Filho. O Banco Mercantil ficou sob a presidência de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal até sua morte, em 2001, quando a instituição foi vendida ao Bradesco.

 

Greve operária e repressão militar em 1968

 

Relatórios do Ministério do Trabalho analisados pela historiadora e professora da Unifesp Cláudia Moraes de Souza comprovam que as condições de trabalho na Cobrasma eram próximas à escravidão. Segundo ela:

 

“Não havia sanitários suficientes para o número de trabalhadores, não havia refeitório, o trabalhador, na hora do almoço, saía para a calçada e almoçava com a marmita no chão. Não havia material de segurança, água filtrada ou pelo menos água, para se beber durante o expediente. Então, questões mínimas, ligadas à higiene e à segurança do trabalhador.”

 

Nesse contexto de precariedade, a unidade da Cobrasma em Osasco se tornou palco de uma das maiores greves operárias do país, em 1968, durante o regime militar. Cláudia Moraes ressalta:

 

“É na greve que a gente enxerga claramente, os empresários chamando Exército brasileiro para atuar como repressor dentro da fábrica.”

 

Na repressão à greve, aproximadamente 400 trabalhadores foram detidos. O episódio é considerado um dos fatores que motivaram a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), cinco meses após a paralisação. O AI-5 resultou no fechamento do Congresso Nacional, cassação de mandatos parlamentares, censura à imprensa e suspensão do direito de habeas corpus.

 

Financiamento empresarial à repressão política

 

A Operação Bandeirantes (Oban), criada pouco após a implementação do AI-5, tornou-se elemento central do aparato repressivo do regime. Considerada embrião dos DOI-CODIs, foi estabelecida em 1970 em dez capitais do país. Tanto a Oban quanto os DOI-CODIs receberam aporte financeiro de empresas nacionais e multinacionais, incluindo o Banco Mercantil de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal.

 

O jornalista Ivan Seixas, então com 16 anos, relata que, após ser preso e torturado com seu pai no DOI-CODI de São Paulo, percebeu que o financiamento da repressão incluía prêmios em dinheiro por opositores capturados:

 

“Fizeram uma parceria com o empresariado para fazer uma caixinha de premiação. Cada um que era capturado tinha um valor a cabeça. O Capitão Carlos Lamarca, quando esteve na minha casa, a cabeça dele valia 750 mil dólares. Um ano depois, quando foi assassinado, valia um 1,5 milhão de dólares.”

 

Seixas também afirma que, quando foi preso, um carcereiro lhe informou que havia recebido 300 dólares por sua detenção. Ele acredita que esse mecanismo fortaleceu setores militares linha-dura e prolongou a duração do regime.

 

A família Bueno Vidigal também liderou o Grupo Permanente de Mobilização Industrial (GPMI), responsável por criar estratégias para adaptar a indústria à produção de materiais militares. A Cobrasma foi acusada de transformar carros da Polícia Militar em veículos blindados para reprimir protestos de rua.

 

Em troca do apoio ao regime, os empresários recebiam benefícios como incentivos fiscais, contratos governamentais e empréstimos em valores elevados. No auge, a Cobrasma registrava faturamento anual próximo a 470 milhões de dólares.

 

Edson Teles detalha:

 

“Esse benefício se dava através dos bancos estatais. O BNDE [atual BNDES], por exemplo, no mesmo momento em que uma polícia militar, uma força paramilitar e a empresa estão se alocando num território, por exemplo, dentro de uma reserva indígena, o BNDE está transportando para as contas da empresa um mega empréstimo com regras econômicas totalmente fora do mercado ou de qualquer outra prática que o próprio Estado fazia na sua normalidade.”

 

Relações familiares com a escravidão

 

Nascido em 1889, Gastão Vidigal era herdeiro de uma família do Nordeste, casando-se com Maria Amélia Pontes Bueno, descendente de um dos ramos mais tradicionais de São Paulo, os Buenos. Pesquisas em jornais do século XIX de Sergipe mostram que Antônio Pedro Vidigal, avô de Gastão, publicou anúncio em 1853 expressando interesse em adquirir uma pessoa escravizada. Já em 1882, reportagem do jornal O Libertador detalha o caso de uma mulher que, ao tentar comprar a liberdade da filha e do neto, teve o preço elevado em 33% pelos avaliadores nomeados pelo tribunal. Um dos responsáveis por essa avaliação pertencia à família Vidigal.

 

O lado materno, os Bueno, também está vinculado à exploração do trabalho escravo. Augusto Xavier Bueno de Andrade, avô de Maria Amélia, ofereceu uma fazenda de café e 75 pessoas escravizadas como garantia de empréstimo junto ao Banco do Brasil, segundo estudo sobre escravos hipotecados.

 

Atualmente, o nome Gastão Vidigal denomina diversos espaços públicos pelo Brasil, como ruas, avenidas, praças, um aeroporto e até uma cidade no interior paulista.

 

O professor José Marciano Monteiro, da Universidade Federal de Campina Grande, avalia que tal prática de nomear espaços públicos com nomes de famílias tradicionais serve para reforçar o capital simbólico das elites, perpetuando redes de prestígio e influência. Ele observa:

 

“As disputas políticas não se dão tão somente entre os vivos. Elas também se dão entre os mortos, quando se disputam as memórias. Isso alimenta o capital simbólico. Imaginemos o que é você chegar em determinado lugar e dizer assim: esta avenida é em homenagem ao meu bisavô. Isto aciona toda uma rede de contatos, de prestígio, de status do ponto de vista do imaginário e, do ponto de vista da representação que é totalmente diferente do sujeito que vai disputar e ele não tem referências.”

 

Monteiro ressalta que, no sistema escravista, tentava-se apagar a memória dos antepassados dos escravizados, privando-os de referências históricas.

 

Posicionamento das famílias e empresas

 

A Cobrasma encerrou suas atividades em 1998. Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, do Banco Mercantil, faleceu em 2001, aos 82 anos, figurando entre os mais ricos do Brasil. Em 2019, a família voltou a ter destaque quando o Banco Paulista, criado por Álvaro Augusto Vidigal em 1990, foi investigado pela Operação Lava Jato sob acusação de lavagem de 48 milhões de reais para a Odebrecht.

 

A assessoria do Banco Paulista foi procurada sobre a tradição escravista da família e possíveis revisões de posicionamento após seis décadas de apoio à ditadura, além de questionamentos sobre as acusações da Lava Jato. O banco informou apenas que seu presidente, Guti Vidigal, não é herdeiro direto do financiador da Oban nem possui relação com a Cobrasma.

 

Consultada, a direção da Cobrasma também não respondeu a perguntas sobre a ocupação militar da fábrica em 1968, o crescimento da empresa durante o regime ou o encerramento de suas operações durante a redemocratização.

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