A Prefeitura de Dourados, no Mato Grosso do Sul, decretou estado de calamidade em saúde pública devido ao crescimento dos casos de chikungunya registrados não apenas na Reserva Indígena de Dourados, mas também em diversos bairros urbanos do município.
O prefeito Marçal Filho já havia assinado, em 20 de março, um decreto que estabeleceu estado de emergência em saúde pública. Sete dias após esse ato, um novo decreto reconheceu situação de emergência em defesa civil nas áreas atingidas por casos da doença. Agora, o terceiro decreto, que está alinhado às recomendações do Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (COE) criado localmente, oficializa a calamidade e coordena as ações de enfrentamento à epidemia tanto na reserva indígena quanto nas regiões urbanas.
Segundo comunicado divulgado pela administração municipal, os indicadores epidemiológicos em Dourados são considerados críticos. O número de notificações de chikungunya já ultrapassou 6.186 casos prováveis e a taxa de positividade atingiu 64,9%.
O Departamento de Gestão do Complexo Regulador do município apontou que a capacidade hospitalar foi superada, atingindo índice de ocupação dos leitos de internação próximo a 110%. A prefeitura considera que essa situação impossibilita uma resposta adequada e oportuna até mesmo para casos graves.
A validade do decreto de calamidade em saúde pública é de 90 dias.
A campanha de imunização contra a chikungunya em Dourados está programada para começar na segunda-feira seguinte ao recebimento do primeiro carregamento de doses, que chegou na noite da sexta-feira anterior.
Nos dias 22 e 23, a secretaria municipal de saúde realizará treinamentos com profissionais de enfermagem. O objetivo é qualificar o atendimento, orientar sobre restrições da vacina e avaliar possíveis comorbidades antes da aplicação.
Pelas normas do Ministério da Saúde, a vacina será destinada exclusivamente a pessoas maiores de 18 anos e menores de 60 anos. A meta definida é de vacinar pelo menos 27% da população-alvo — o que corresponde a aproximadamente 43 mil indivíduos.
Existem restrições específicas de aplicação da vacina. Não poderão receber a dose:
Também está vedada a aplicação da vacina em pessoas que tenham tido chikungunya nos 30 dias anteriores, que estejam com quadro febril grave, que tenham recebido outra vacina de vírus atenuado nos 28 dias prévios ou de vírus inativado nos últimos 14 dias.
A administração municipal estima que o processo de imunização será mais demorado, pois todos os integrantes do grupo elegível deverão ser avaliados por um profissional de saúde antes de receberem a dose. A distribuição dos imunizantes a todas as salas de vacinação do município, incluindo unidades de saúde indígena, está prevista para a sexta-feira posterior à chegada das doses.
O calendário da prefeitura também prevê uma ação de vacinação em formato drive-thru durante o feriado de 1º de maio, Dia do Trabalho, entre 8h e 12h, no estacionamento da sede administrativa do município.
A vacina utilizada, aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em abril de 2025, será administrada gradativamente em localidades apontadas como de maior risco de transmissão da doença. Estima-se que cerca de 20 municípios, distribuídos em seis estados brasileiros, sejam contemplados ao longo dos próximos anos.
“A escolha dos municípios levou em conta fatores epidemiológicos, como a possibilidade de ocorrência de casos em regiões já afetadas pelo vírus, além do tamanho da população atendida e da viabilidade de introdução da nova vacina nos sistemas de saúde locais em prazo reduzido”, detalhou a prefeitura.
No último levantamento realizado na segunda-feira (20), Dourados contabilizava 4.972 casos prováveis de chikungunya, sendo 2.074 deles já confirmados, 1.212 descartados e outros 2.900 sob investigação. Até aquele momento, oito mortes foram confirmadas em decorrência de complicações da doença, sendo sete delas entre moradores da reserva indígena local.
No final de março, o Ministério da Saúde liberou um repasse emergencial no valor de 900 mil reais para o combate ao surto em Dourados. O montante será transferido em parcela única do Fundo Nacional de Saúde para o fundo municipal, podendo ser utilizado em ações como intensificação da vigilância epidemiológica, controle do mosquito Aedes aegypti, melhoria da assistência médica e suporte às equipes envolvidas diretamente no atendimento à população.
A chikungunya é uma arbovirose causada por um agente etiológico transmitido pela picada de fêmeas infectadas do gênero Aedes, especialmente o Aedes aegypti no contexto brasileiro.
O vírus foi introduzido no continente americano em 2013, provocando epidemias em diversos países da América Central e nas ilhas do Caribe. No segundo semestre de 2014, o Brasil confirmou oficialmente a circulação do vírus nos estados do Amapá e da Bahia, e atualmente há registros de transmissão em todas as unidades federativas do país.
Em 2023, o Ministério da Saúde destacou a ampliação territorial do vírus, com maior incidência em estados da Região Sudeste, diferente do histórico de concentração no Nordeste.
As manifestações clínicas mais frequentes da infecção incluem inchaço e dores articulares, que podem ser incapacitantes. Também há possibilidade de sintomas extra-articulares. Em quadros graves, a chikungunya pode exigir internação hospitalar e evoluir para óbito.